SANTA LUZIA TEM CAMPEÃO BRASILEIRO DE JIU-JITSU

De um quintal em Santa Luzia ao Topo do Brasil: A Consagração do “Tio Hulk” no Jiu-Jitsu

Acumulando títulos estaduais, o atleta Fábio superou o preconceito inicial com o esporte, a rotina dupla de trabalhador e a falta de patrocínios para conquistar o ouro no Rio de Janeiro, coroando a jornada com uma surpreendente graduação para a faixa marrom.

Redação: Cibele Miranda

O tradicional tatame azul da Gracie Barra Liberdade (GB Liberdade), em Santa Luzia, tem sido palco de muita celebração e emoção nos últimos dias. O grande motivo é o feito histórico de Fábio, morador da cidade e carinhosamente conhecido pelas crianças da academia como “Tio Hulk”. Recentemente, ele gravou seu nome na história do esporte ao conquistar o título do Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu Sem Kimono 2026 (modalidade No-Gi), organizado em conjunto pela CBJJ (Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu) e IBJJF (International Brazilian Jiu-Jitsu Federation).

O grandioso evento aconteceu nos dias 27 e 28 de junho de 2026, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A competição reuniu cerca de 7.900 atletas oriundos de todo o Brasil, além de nações vizinhas como Argentina e Peru. Vencer uma disputa dessa magnitude não apenas consolida o talento de Fábio — que já vinha de conquistas no Campeonato Mineiro e Estadual —, mas o coloca entre os melhores da América do Sul na modalidade.

Nesta segunda-feira (6/7), Fábio conversou com o jornalista Ramon Damásio e relembrou a trajetória, quando iniciou os treinos em um tatame, no quintal de casa.

O Preconceito Vencido e as Raízes no Quintal

A relação de Fábio com o Jiu-Jitsu nem sempre foi de paixão imediata. Há cerca de nove anos, o esporte entrou em sua vida de forma tímida e após muita insistência. Ele confessa que, no início, tinha preconceito com a prática, achando que era “apenas agarração” e que não fazia sentido.

Quando finalmente cedeu ao convite, os primeiros golpes foram aprendidos longe das grandes academias: em cima de um tatame improvisado no quintal da casa de sua mãe. Hoje, atuando também como instrutor e orientando os novatos, Fábio faz questão de olhar para trás e dar nome aos que estiveram ao seu lado quando tudo começou.

“Eu tenho que ressaltar essas pessoas e dar nome, porque o início é muito importante para a gente”, destaca Fábio.

No quintal, os treinos eram divididos com seu irmão, seu cunhado e figuras essenciais que o inseriram na arte suave. Entre os homenageados por ele estão o Professor Bira (da academia do bairro Cristina B), os amigos de treino Angola (Alexandre Trator), além de seu colega de trabalho Jorge Eduardo, o “Coiote”. Para o atleta, o acolhimento dessas pessoas foi o divisor de águas em sua vida.

O Desafio no Parque Olímpico e as Férias Estratégicas

Mesmo ostentando títulos e competindo em alto nível, Fábio enfrenta a dura realidade de grande parte dos atletas amadores no Brasil: a ausência de patrocínio e a necessidade de conciliar o esporte com o trabalho formal.

“Se a gente conseguisse viver do esporte, seria muito mais fácil a caminhada. Como não tenho essa oportunidade, eu trabalho fora e treino à noite. É a realidade do trabalhador brasileiro que vende suas horas para levar o sustento para casa”, desabafa o campeão.

Para arcar com os altos custos de viagens, hospedagens e inscrições em eventos como o do Parque Olímpico, o planejamento precisou ser estratégico. Para evitar o desgaste físico de viajar de ônibus em um esquema de “bate e volta”, Fábio programou suas férias no trabalho para coincidir com o campeonato. Ele viajou para o Rio de Janeiro com a família, unindo o passeio turístico à disputa que lhe renderia o sonhado ouro nacional.

O atleta aproveitou o espaço na mídia para reforçar o apelo a empresários e comerciantes locais que queiram investir e associar suas marcas ao esporte, aliviando a carga financeira dos competidores.

Inspiração que Passa de Pai para Filha

O sucesso no tatame também reverbera fortemente dentro de casa. A filha de Fábio, Valentina, de 8 anos, já segue os passos do pai e treina desde os cinco.

Assistindo de perto às vitórias e aos desafios, a jovem atleta afirma sentir muito orgulho a cada competição, embora confesse ficar ansiosa durante as lutas. O esporte se tornou um pilar familiar, onde a troca constante de dicas de treino fortalece ainda mais a relação e a cumplicidade entre os dois.

O Esporte como Ferramenta de Transformação

Para Nil Costa, líder e responsável pela Gracie Barra Liberdade, o título nacional de Fábio é muito celebrado, mas é apenas um reflexo do trabalho social e humano desenvolvido no espaço. A academia atende alunos de todas as idades, reforçando que o foco principal vai muito além da defesa pessoal ou de pódios.

“O que eu acho mais importante, além da medalha, é a gente ser ferramenta de transformação na vida dele e da família. O título é só um incremento que, com muito mérito dele, foi conquistado”, destaca o professor.

Segundo Nil, o Jiu-Jitsu promove a humildade diária. Ele ressalta que, muitas vezes, pessoas acostumadas a cargos de liderança no trabalho precisam recomeçar do zero ao pisar no tatame, permitindo-se aprender novamente, com respeito e senso de comunidade.

Uma Surpresa Inesquecível no “Azulzão”

Como se o título em meio a quase 8 mil atletas não fosse o suficiente para coroar o momento, Fábio viveu uma emoção dupla durante a cobertura jornalística. Em reconhecimento aos seus anos de esforço, dedicação, resiliência e evolução técnica, os professores interromperam o encerramento da entrevista para uma cerimônia surpresa no meio do tatame: a graduação de Fábio para a faixa marrom.

Visivelmente emocionado, surpreso e sem palavras, o “Tio Hulk” foi abraçado pelos colegas. Ele aproveitou o momento para estender sua imensa gratidão a Deus pela saúde, à sua esposa, Mariana, e à filha Valentina. Ele ressaltou que, sem o suporte incondicional da família, não teria força para conciliar sua rotina e chegar tão longe. Uma verdadeira vitória, forjada no suor de um quintal em Santa Luzia e consagrada no topo do Brasil.

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